Direita reanimada
Caminhada de Nikolas não alterou situação de Bolsonaro, mas deu novo ânimo a um campo político abatido desde a prisão do ex-presidente
A caminhada de cerca de 240 quilômetros realizada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) de Paracatu (MG) a Brasília, encerrada com uma manifestação no domingo, 25, não teve qualquer efeito na reversão da prisão do Jair Bolsonaro (PL). Mas não foi em vão.
O ato foi feito como protesto contra a prisão do ex-presidente e outras medidas que Nikolas e seus aliados classificam como arbitrariedades do Supremo Tribunal Federal (STF).
O número de apoiadores foi baixo para pressionar a Corte a reconsiderar suas decisões ou conduzir o Congresso Nacional a uma mobilização por uma saída via Legislativo, mas a mobilização foi grande o bastante para projetar a liderança do deputado mineiro.
18 mil
A manifestação na Praça do Cruzeiro, em Brasília, reuniu cerca de 18 mil pessoas, segundo levantamento do Monitor do Debate Político, da USP, em parceria com a ONG More in Common.
Para efeito de comparação, a manifestação na avenida Paulista em 7 de setembro do ano passado, em apoio a Bolsonaro, reuniu 42,2 mil pessoas, segundo a mesma fonte.
E essa foi a menor nas manifestações recentes convocadas por Bolsonaro, que chegaram a reunir 200 mil pessoas na mesma avenida Paulista, no início de 2024.
Ânimo
Mesmo longe de reunir o mesmo número de apoiadores de Bolsonaro, Nikolas conseguiu dar um novo ânimo para a direita nacional, principalmente após a prisão do ex-presidente.
O campo estava completamente abatido com as derrotas dos últimos anos e a melancólica saída de cena de seu principal líder, em agosto do ano passado, em decorrência da prisão domiciliar — depois transformada em detenção em regime fechado.
O ato do deputado federal serviu como uma prova de vida da direita brasileira, reorganizou emocionalmente a militância e funcionou ainda como uma reafirmação da sua identidade num momento de desorientação pós-derrotas.
“Mobilizações desse tipo raramente produzem efeitos imediatos, e às vezes nem precisam, porque elas produzem uma narrativa. Atos como o liderado por Nikolas atualizam a sensação de pertencimento ao grupo e reencenam a ideia de perseguição do ‘sistema’ como uma cola ideológica”, afirma o cientista político Magno Karl, diretor-executivo do Livres.
“O ato também tem efeito interno: aglutina lideranças, une suas vozes e mede quem está dentro ou fora desse movimento. Em resumo, este não foi um ato para mudar o processo judicial, mas para movimentar o ambiente político e tentar manter Bolsonaro como centro simbólico da direita brasileira”.
Liderança consolidada
O movimento também contribuiu para consolidar Nikolas ainda mais como uma liderança da direita.
A iniciativa de promover um protesto pró-Bolsonaro em forma de peregrinação durante sete dias em direção à capital federal foi inédita e fez com que outros parlamentares e a própria família Bolsonaro se mobilizassem para não ficarem de fora.
“O Nikolas é, sem dúvida, uma grande liderança da nova geração da direita brasileira. Um jovem talento, um garoto prodígio da política. Mas é importante dizer algo que a esquerda nunca conseguiu fazer: Jair Bolsonaro formou lideranças”, afirma o senador Jorge Seif (PL-SC).
“Bolsonaro transformou desconhecidos em lideranças nacionais. Descobriu talentos em pessoas comuns. Eu mesmo era um peixeiro e virei senador. O Tarcísio era consultor aqui no Senado e hoje governa o maior estado do país. O próprio Nikolas, o André Fernandes, o Gustavo Gayer e tantos outros são frutos desse processo”.
Para o parlamentar, o ato consolida Nikolas como uma liderança nacional, reanima a direita, devolve esperança ao campo e o lembra que “vale a pena lutar pelo Brasil”.
"Despertar"
O deputado federal Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PL-SP) classifica a “Caminhada Pela Justiça e Liberdade” como “o despertar de uma população que já estava acordada”.
“Foi acordada mais de dez anos atrás, durante o processo da Lava Jato, durante o impeachment da Dilma Rousseff e a prisão do Lula. Essa população, no entanto, ao despertar ao problema, se frustrou, se acomodou e se transformou numa massa inerte, somente observadora daquilo que estava acontecendo na política”, afirma.
“Mas o Nikolas veio para redespertar essa população, que é a parte fundamental das mudanças que terão que vir para o Brasil no futuro”.
Carisma
Nikolas se comunica bem e consegue mobilizar seus eleitores. O parlamentar tem carisma e domina a gramática das redes sociais, de conflito, ritmo, enquadramento moral e mobilização.
“O Nikolas, junto aos principais nomes da família Bolsonaro, é quem hoje, em alguma medida, mais mobiliza o universo da extrema-direita no Brasil, num ambiente digital, mas não apenas. Ele claramente é um influenciador hoje inescapável para aqueles segmentos que têm posições extremadas à direita vocalizadas por ele”, afirma o cientista político Paulo Roberto Leal, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
O desafio para que ele possa se consolidar ainda mais como liderança, agora, está principalmente na sua capacidade de organização.
Magno Karl reforça que ainda não está claro se o parlamentar consegue ser peça fundamental da direita, articulando alianças, construindo coalizões para governar e ser um dos pilares do pós-Bolsonaro.
Por enquanto, Nikolas se fortalece na guerra cultural e na mobilização moral, mas a densidade política é posta a prova quando se torna necessário transformar capital digital em poder institucional. Para isso, é preciso o desenvolvimento de um perfil diferente.
Alternativa à família Bolsonaro?
Nikolas não se apresenta como alternativa ao bolsonarismo, mas incomoda os filhos de Bolsonaro, que não o celebraram tanto quanto Tarcísio de Freitas ou a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.
Ele se porta como uma atualização do ex-presidente. É mais jovem, se comunica melhor, tem mais disciplina e é menos caótico. Além disso, fala mais sobre políticas públicas do que Bolsonaro.
Porém, ainda opera muito na mesma lógica simbólica do ex-presidente, que consiste em polarização moral, narrativa de perseguição e mobilização permanente.
Tensão
O deputado parece estar se tornando, contudo, uma alternativa aos filhos de Bolsonaro. Um sintoma disso é a relação tensa com o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro nos últimos meses.
Em julho do ano passado, Eduardo criticou Nikolas por ter supostamente apoiado críticas ao pai, que vieram do perfil anônimo “Baianinha Intergalática” no X em uma live.
“Ela [Baianinha Intergalática] é uma pessoa abjeta, que defende a minha prisão e de minha família. É triste ver a que ponto o Nikolas chegou”, disse Eduardo na rede social.
Depois, em novembro, o ex-deputado compartilhou uma publicação que acusava Nikolas de “querer se livrar” de Jair e de liderar uma “dissidência” para se deslocar do ex-presidente.
“A briga na direita que todos estão vendo é simples. Nikolas quer se livrar do Bolsonaro de vez. Ele está liderando uma dissidência, e vários políticos mais jovens estão com ele. O problema? O de sempre: ‘Temos que nos descolar do Bozo sem perder o eleitor’”, dizia a publicação.
Posteriormente ainda, em dezembro, Nikolas rebateu uma nota pública divulgada por Eduardo em que ele afirma que a “sociedade brasileira” e a “falta de coesão interna” contribuíram para a decisão do governo Trump de revogar a aplicação da Lei Magnitsky.
Segundo o deputado federal por Minas Gerais, essa interpretação representa uma “fraude intelectual” e transfere de forma injusta a responsabilidade para quem tem enfrentado pressões e riscos reais no país.
Fato é que a família Bolsonaro deixou claro que pretende continuar como a principal voz de comando da direita brasileira, como comprova a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-SP) à Presidência da República.
Nikolas pode até vir a se tornar uma alternativa à família Bolsonaro, mas os filhos do ex-presidente já deixaram bem claro, nos atritos com ele e com outros aliados, que esse não será um processo harmonioso.
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