Trump subverte Declaração de Independência dos EUA
Em discurso no 4 de julho, presidente ignora conceitos-chave que orientaram os americanos em 1776, como direitos iguais, democracia e paz
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump (foto), proferiu um discurso na noite do sábado, 4 de julho, para comemorar os 250 anos da Declaração de Independência, marco fundador do país hoje comandado por ele.
Mas o discurso de Trump em vários trechos subverteu as ideias e o contexto da Declaração.
O objetivo principal da Declaração era anunciar a separação da Inglaterra e pedir que o país recém-criado fosse aceito pelo resto da comunidade internacional.
Mas o que transcendeu ao texto foi um trecho que pouco tinha a ver com a sua finalidade, mas que trazia alguns conceitos herdados do Iluminismo e do filósofo inglês John Locke.
"Todos os homens são criados iguais"
"Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo seu Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade. — Que para garantir esses direitos, os governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados", diz a Declaração.
Não havia, pois, qualquer divisão ou gradação entre os americanos que apoiavam a Declaração: todos tinham os mesmos direitos.
Trump, contudo, destacou divisões entre os americanos, opondo-se aos "comunistas".
"Todas essas conversas dos comunistas, eles não têm chance. Nem mesmo uma chance. Não queremos comunistas em nosso país. Nunca funcionou. E nunca funcionará", afirmou o presidente.
"A América jamais será um país comunista. Isso não vai acontecer. O comunismo é um fracasso, e sempre será. O sistema comunista é o oposto do sistema americano,
e o sistema comunista nunca funcionou. Nossos guerreiros não combateram o comunismo em campos de batalha ao redor do mundo apenas para ver essa ameaça erguer sua face hedionda bem aqui, na América. Não vamos deixar que isso aconteça. Queremos acabar com uma ameaça dessas imediatamente, antes mesmo que ela comece. É como um câncer. É preciso extirpá-lo. É preciso extirpá-lo rapidamente."
Consentimento dos governados
A Declaração diz que um governo só deve ser mantido quando defende os direitos do seu povo, incluindo o de governar a si próprio.
Foi uma revolução para a época, porque tal governo não existia em lugar algum.
Ainda que não se falasse em "democracia" naquela época, foram os americanos que mudaram os paradigmas da política para que essa forma de governo acontecesse.
Trump, no entanto, colocou em dúvida os instrumentos usados pelos americanos para governarem a si próprios, principalmente o sistema eleitoral.
Além disso, o presidente tem buscado cercear o direito ao voto de americanos.
"A América está de volta e queremos manter a América grandiosa. E faremos isso aprovando a Lei Salve a America , o que significa que todos os eleitores deverão apresentar um documento de identificação. Todos os eleitores deverão apresentar algo chamado comprovante de cidadania. E não haverá votação por correio, exceto em casos de doença, deficiência, missão militar ou viagem", afirmou o presidente.
Paz
Por fim, a Declaração de Independência, embora tenha sido promulgada em plena guerra contra a Inglaterra, não tinha qualquer beligerância em relação a outros países.
Como o objetivo final era ser reconhecido pelos demais países para poder praticar o comércio, os americanos vão buscar a paz com o resto do mundo.
Trump, por sua vez, fala orgulhoso de suas intervenções militares em outros países.
"Olhe para a Venezuela, olhe para o Irã. Nós os aniquilamos, aniquilamos as forças militares deles", disse o presidente.
Invenção
Trump ainda fez uma referência a um suposto trecho da Declaração de Independência.
"E, como nos diz a nossa Declaração de Independência, todos nós somos feitos à imagem de um Deus Todo-Poderoso", afirmou o presidente.
A frase, contudo, não consta na Declaração.
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