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Quando a psicologia se torna militância

Sem parâmetros objetivos e universalizáveis, a defesa dos direitos humanos converte-se em seletividade política

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Clarita Maia
5 minutos de leitura 04.11.2026 10:39 comentários 0
Quando a psicologia se torna militância
Mulher no divã. Inteligência artificial Gemini
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Um relatório feito pelos republicanos no Congresso dos Estados Unidos, divulgado no final de outubro, acusa dirigentes da Associação de Psicologia Americana (APA) de tolerar antissemitismo, marginalizar profissionais judeus e permitir que disputas ideológicas contaminem a instituição.

Após os ataques do Hamas de 7 de outubro de 2023, a Amena-Psy, associação de psicólogos de origem árabe, do Oriente Médio e do Norte da África, foi consultada sobre a declaração da APA e recomendou retirar a expressão “ataques terroristas”, que não figurou na versão publicada.

Reconhecer o sofrimento dos civis palestinos é indispensável, mas não exige subordinar a descrição de ataques contra civis a conveniências políticas.

Essa entidade, Amena-Psy, tornou-se interlocutora em matéria de antissemitismo, inclusive na revisão da resolução de 2007.

Já o Comitê de Assuntos de Minorias Étnicas teria condicionado seu apoio à criação de uma associação de psicólogos judeus à adoção de medidas relativas à Palestina e ao fortalecimento da própria Amena-Psy.

A assimetria é eloquente: uma organização sem mandato para representar judeus era ouvida sobre antissemitismo, enquanto os psicólogos judeus encontravam resistência para se organizar.

Mais perturbadoras são as mensagens atribuídas à direção. Diante de queixas de psicólogos judeus, uma dirigente da diversidade reagiu com um suspiro de impaciência. Outra dirigente referiu-se aos “judeus tão zangados conosco”, sugerindo que suas denúncias alimentariam o ódio.

Quem acolhe o sofrimento de uma minoria quando a estrutura incumbida de combater preconceitos trata suas reclamações como inconvenientes?

Psicologia decolonial

O relatório dos parlamentares questiona vertentes da chamada "Psicologia decolonial" e um artigo que falou em “psicologias sionistas” sem oferecer, quando instado, referências.

Nem toda crítica ao sionismo ou a Israel é antissemitismo, e perspectivas decoloniais não são, por si sós, suspeitas.

A distinção está no rigor científico e na ética: não converter identidades coletivas em categorias patológicas, preconceitos ideológicos em evidências clínicas ou convicções políticas em premissas terapêuticas.

A nova resolução, de fevereiro de 2026, condena a hostilidade contra judeus e reconhece como antissemitas a responsabilização coletiva por atos de Israel e a presunção de dupla lealdade.

Mas adverte contra a “instrumentalização do antissemitismo” e incorpora a Declaração de Jerusalém, alternativa à definição da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA).

Para o relatório, isso enfraqueceu garantias — e o texto foi aprovado sem o aval do grupo de psicólogos judeus convocado a assessorá-lo.

O risco é que a ressalva sirva para desacreditar denúncias. Proteção contra o preconceito e liberdade intelectual não se excluem. Cabe garanti-las, sem converter autoridade científica em alinhamento geopolítico.

A politização da psicologia

O caso americano ilumina o brasileiro. No artigo “A politização da psicologia”, de 30 de outubro, examinei manifestações do Conselho Federal e de conselhos regionais de Psicologia sobre Israel e Palestina que ultrapassaram a defesa humanitária para adotar categorias da militância internacional.

Não se trata de negar aos psicólogos o debate público, mas de distinguir a liberdade política de seus integrantes das competências de órgãos incumbidos de fiscalizar a profissão.

A distinção pesa quando tais entidades recorrem a qualificações como genocídio. No processo movido pela África do Sul, a Corte Internacional de Justiça reconheceu, para fins de medidas provisórias, a plausibilidade de direitos protegidos pela Convenção sobre Genocídio e o risco de prejuízo irreparável.

Não declarou, contudo, que Israel tenha cometido genocídio, nem estabeleceu a intenção específica exigida. O mérito segue pendente. Distinguir cautela de conclusão não é preciosismo jurídico, mas dever de quem fala com autoridade técnica.

Exige-se também coerência. A Cruz Vermelha aponta cerca de 130 conflitos armados em curso. Pretendem os Conselhos pronunciar-se sobre todos?

Se o critério for a repercussão no Brasil, como explicar o silêncio sobre o Hezbollah no Líbano, sobre as práticas ditatoriais e fascistas do Hamas contra a população de Gaza, denunciadas pelos moradores de Gaza, sobre o sofrimento de armênios e sírios — ou sobre a guerra da Rússia na Ucrânia, cuja comunidade no Brasil é expressiva?

Por que um conflito se torna imperativo ético da profissão, e outros, com muito mais vítimas, não?

Sem parâmetros objetivos e universalizáveis, a defesa dos direitos humanos converte-se em seletividade política.

Os dois casos revelam um problema que transcende o Oriente Médio: instituições profissionais comprometem sua legitimidade ao substituir critérios técnicos por preferências ideológicas. Sua credibilidade não se mede pela intensidade de seus posicionamentos políticos, mas pela fidelidade e coerência às suas finalidades legais e estatutárias.

 

Clarita Maia é consultora legislativa do Senado e doutora em Direito pela Universidade de São Paulo

Instagram: @claritamaia

 

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