Por que André Ventura apanhou feio em Portugal
Proposta de mudar a Constituição não pegou bem com a população, nem com os demais políticos de direita
O candidato André Ventura (foto), do partido Chega, perdeu feio para o socialista António José Seguro no segundo turno das eleições presidenciais em Portugal .
Seguro teve 66% dos votos e Ventura, 33%.
Para cada voto que Ventura conseguiu, o socialista obteve dois.
Direita
A derrota de Ventura surpreende, principalmente porque três candidatos de direita (João Cotrim, Gouveia e Melo e Marques Mendes) somaram 39% dos votos no primeiro turno.
Ventura, contudo, só adicionou nove pontos percentuais entre o primeiro e o segundo turno.
A explicação é óbvia: a direita preferiu engolir o socialista para evitar a vitória do populista Ventura.
Diversos nomes da direita, incluindo integrantes do Partido Social Democrata (PSD), que é de direita e governa o país com o primeiro-ministro Luís Montenegro, apoiaram Seguro publicamente.
Leia o artigo de Bruno Soller em Crusoé: Erro tático em Portugal
Moderação
Portugal, assim como a Espanha, passou incólume pelas ondas mais populistas que tomaram outros países da Europa, como o Brexit na Inglaterra e Viktor Orbán na Hungria.
Nos países ibéricos, as instituições, como o parlamentarismo e os partidos, funcionam muito bem, e a população tende à moderação.
Uma pesquisa da Kantar de dezembro mostrou que 84% dos portugueses consideram viver em democracia algo "muito" ou "extremamente importante". A média europeia foi de 75%.
Ventura ganhou força nos últimos anos com um discurso contra ciganos e imigrantes ilegais.
No Brasil, tornou-se conhecido pelos ataques a Lula e apoio a Jair Bolsonaro.
Mas Ventura falhou miseravelmente ao desenhar uma política nacional, mais ampla.
Sua proposta de alterar a Constituição assustou os portugueses.
Ventura afirmou que a Constituição "não é uma Bíblia", e propôs mudar as regras de revisão constitucional.
O candidato queria incluir na Carga Magna a castração química e a prisão perpétua, além de dar mais poderes ao presidente.
Mas não existe uma propensão dos portugueses para reformas drásticas.
A Constituição portuguesa é de 1976. Foi feita logo após o fim da ditadura de Salazar.
Desde então, ocorreram apenas sete revisões constitucionais, entre elas a que permitiu a entrada na União Europeia.
A Constituição, assim, é um patrimônio respeitado pela população.
Daqui para a frente, Ventura seguirá tendo sua força e influenciando a direita portuguesa.
Algumas de suas propostas foram incorporadas pela direita moderada.
Mas o resultado do domingo, 8, mostra que ele dificilmente terá a maioria do país.
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