Por que a crise no Paraguai é diferente do caso Master
Crusoé conversou com economista sobre o escândalo que levou à renúncia do presidente Santiago Peña
O presidente do Paraguai, Santiago Peña (foto), renunciou ao cargo nesta quinta-feira, 5.
A renúncia ocorre em meio à crise envolvendo o banco digital Ueno, que fechou as portas e deixou clientes sem acesso ao próprio dinheiro.
O banco emprestou mais dinheiro do que suas reservas de segurança permitiam.
Com isso, o Banco Central assumiu o controle e iniciou a liquidação para proteger o dinheiro de aproximadamente 3 milhões de clientes.
As investigações apontam que o Ueno administrava cerca de 850 milhões de dólares em recursos do Estado paraguaio, incluindo verbas de fundo de pensão e aposentadoria.
Peña foi acionista do grupo controlador da instituição até março de 2025, quando vendeu suas ações. Ele era presidente desde agosto de 2023.
O vice-presidente, Pedro Alliana, deverá assumir o poder e ficar até 2028.
O Congresso arquivou o pedido de impeachment de Alliana. O processo contra Peña, contudo, segue adiante.
Diferentemente do escândalo do Banco Master no Brasil, os paraguaios estão agindo para punir os envolvidos.
Crusoé conversou com o economista Wagner Enis Weber, diretor-presidente da Braspar, sobre o escândalo financeiro, o futuro do Partido Colorado e os possíveis impactos da crise para a economia paraguaia.
O que ocorrerá com a saída do Peña?
Essa situação já vinha se arrastando. O presidente do Partido Colorado, Horácio Cartes, queria ficar livre de Peña, e vice-versa. Cada um tinha o seu grupo dentro do partido.
Em parte, é uma luta por poder.
Mas esse banco Ueno surgiu do nada, era uma financeira média que se juntou a um banco com milhões de clientes e fundaram essa instituição.
Tenho 51 anos de Paraguai, nunca vi uma ascensão tão rápida como a do Ueno. Em pouco tempo, financiaram tudo. Eram patrocinadores de esportes, eventos culturais. Tudo.
O Peña era sócio do grupo proprietário, mas se desfez das ações apenas em março de 2025. Eles capitalizaram o Ueno com dinheiro público.
O Partido Colorado seguirá no poder?
Na história recente, a oposição sempre se divide e o Partido Colorado sempre consegue se unificar.
A briga interna entre os colorados é como nos Estados Unidos, com primárias muito disputadas. Depois, eles se unem. Para derrotar o Partido Colorado, seria necessário ter a união da oposição em torno de um candidato popular. Ou alguma divisão nos colorados.
Havia a esperança de que Peña governasse com o Cartes. O ex-presidente apostou muito na juventude do partido. O vice Pedro Alliana também é cria do Cartes. A chapa foi montada por ele.
Qual o papel do Banco Central nessa crise?
Antes de ser ministro da Economia, Peña foi presidente do Banco Central. E ele colocou no comando da instituição um ex-diretor da Ueno.
Os fiscais do Banco Central já estavam alertando sobre os problemas, mas o banco conseguiu disfarçá-los bem por meio da triangulação dentro do conglomerado. O BC do Paraguai é independente antes que o Brasil tomasse a mesma medida.
Houve uma grande falha do Banco Central, que está sendo corrigida. Nunca havia ocorrido um problema desse tipo.
Os paraguaios são menos tolerantes com corrupção?
A intolerância foi com a corrupção e com o fato de Peña estar envolvido.
Também houve indignação porque o Banco Central não fez absolutamente nada. Vinte e sete pessoas já foram presas: os proprietários do grupo, os donos do Ueno, diretores e executivos.
É possível que Peña seja preso futuramente. É diferente do caso do Banco Master no Brasil.
O movimento do empresariado brasileiro rumo ao Paraguai poderá ser afetado?
Não haverá mudança.
Muitos empresários me ligaram confirmando a ida, os projetos.
A política econômica não muda, pois não existe nenhuma política contrária. São anos de uma política liberal que funciona. Ninguém quer mexer nela.
Não existe possibilidade de ruptura institucional e econômica.
Vão restituir o dinheiro para 97% dos clientes do Ueno por meio do Fundo de Garantia.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (0)