Crusoé
03.08.2026 Fazer Login Assinar
Crusoé
Crusoé
Fazer Login
  • Acervo
  • Edição diária
Edição Semanal
Pesquisar
crusoe

X

  • Olá! Fazer login
Pesquisar
  • Acervo
  • Edição diária
  • Edição Semanal
  • Entrevistas
  • O Caminho do Dinheiro
  • Ilha de Cultura
  • Leitura de Jogo
  • Poder
  • Colunistas
  • Assine já
    • Princípios editoriais
    • Central de ajuda ao assinante
    • Política de privacidade
    • Termos de uso
    • Política de Cookies
    • Código de conduta
    • Política de compliance
    • Baixe o APP Crusoé
E siga a Crusoé nas redes
Facebook Twitter Instagram
Diários

O homem, o cargo e o Estado

Por que a diplomacia exige que o governante saiba distinguir suas convicções pessoais da instituição que representa

avatar
Maristela Basso
5 minutos de leitura 28.07.2026 10:53 comentários 0
O homem, o cargo e o Estado
Javier Milei e Flávio Bolsonaro. Foto: Vittor Sales
  • Whastapp
  • Facebook
  • Twitter
  • COMPARTILHAR

A visita do presidente argentino Javier Milei (foto) ao Brasil para participar de um evento político, sem cumprir a agenda institucional que normalmente se espera entre chefes de Estado, provocou reações previsíveis.

Uns aplaudiram sua coerência ideológica. Outros lamentaram a deselegância diplomática.

Mas talvez estejamos fazendo a pergunta errada.

A questão não é saber se Milei estava politicamente certo ou errado. Tampouco interessa discutir se sua simpatia por determinados grupos políticos brasileiros é legítima. Em uma democracia, ela certamente é.

O verdadeiro problema começa quando o homem se sobrepõe ao cargo.

Existe uma diferença fundamental entre o cidadão Javier Milei e o presidente da República Argentina.

O primeiro é livre para cultivar amizades, manifestar preferências e escolher seus interlocutores.

O segundo já não pertence inteiramente a si mesmo. Ao assumir a chefia do Estado, passa a representar uma realidade muito maior do que sua própria biografia, suas convicções e até mesmo seus eleitores.

É precisamente essa transformação que dá sentido à diplomacia.

Ao contrário do que muitos imaginam, o protocolo diplomático jamais existiu para satisfazer vaidades ou preservar formalidades vazias. Sua função sempre foi outra: impedir que as paixões individuais contaminassem as relações permanentes entre os Estados.

Os governos mudam.

Os presidentes passam.

As maiorias eleitorais se alternam.

Os Estados, porém, permanecem.

É por isso que, durante séculos, a diplomacia foi construída sobre gestos de respeito recíproco, inclusive — e sobretudo — entre adversários.

A civilidade nunca significou concordância. Significou reconhecimento.

Reconhecimento de que o outro representa uma instituição cuja legitimidade independe da simpatia pessoal de quem ocupa o cargo.

Quando um chefe de Estado atravessa uma fronteira, ele não viaja sozinho. Viajam com ele sua Constituição, sua bandeira, seus tratados, sua história e milhões de cidadãos que talvez jamais compartilhem das opiniões pessoais daquele governante.

Esse é o verdadeiro peso da representação.

O protocolo diplomático protege exatamente essa dimensão simbólica. Ele recorda, a cada cerimônia e a cada encontro oficial, que os homens são transitórios, mas as instituições precisam permanecer.

Vivemos, entretanto, uma época em que a autenticidade passou a ser confundida com espontaneidade e a espontaneidade, por sua vez, com ausência de limites.

Celebram-se líderes que dizem tudo o que pensam, fazem tudo o que desejam e transformam cada gesto em demonstração pública de personalidade.

Mas governar nunca foi apenas expressar a própria personalidade.

Governar exige, antes de tudo, aprender a contê-la.

Norbert Elias demonstrou que o processo civilizador consistiu justamente na crescente capacidade de controlar impulsos em benefício da convivência social. Quanto maior o poder concentrado em uma pessoa, maior deveria ser sua capacidade de autocontenção.

A lógica contemporânea parece caminhar na direção oposta.

Hoje, muitos confundem a eliminação dos freios com coragem.

Confundem grosseria com autenticidade.

Confundem espetáculo com liderança.

No entanto, a autoridade verdadeira raramente precisa exibir-se.

Ela se manifesta justamente na capacidade de distinguir aquilo que pertence ao indivíduo daquilo que pertence à instituição.

Talvez seja essa a primeira grande renúncia exigida de todo estadista.

Aceitar que o cargo não lhe pertence.

O mandato é temporário.

A instituição é permanente.

O homem chega.

O Estado permanece.

Essa consciência exige um exercício difícil, quase sempre invisível: colocar o próprio ego em segundo plano para que fale a instituição.

É esse gesto silencioso que distingue o governante do simples ocupante do poder.

Freud ensinava que a civilização nasce quando aprendemos a limitar nossos impulsos. Lacan lembrava que o sujeito só se constitui plenamente quando reconhece uma ordem simbólica que o antecede e o limita.

As instituições pertencem exatamente a essa ordem.

Nenhum presidente é maior do que a República que representa.

Nenhum governante é maior do que o Estado cujo destino administra temporariamente.

Por isso, talvez devêssemos abandonar a pergunta sobre quem venceu ou perdeu mais um episódio da polarização política.

Há uma pergunta muito mais importante.

O governante ainda consegue perceber onde termina o homem e começa a instituição?

Porque é exatamente nessa fronteira que nasce a verdadeira estatura de um estadista.

O protocolo diplomático não protege a vaidade dos governantes.

Protege os povos contra a vaidade dos governantes.

Talvez essa seja uma das mais discretas — e também uma das mais importantes — conquistas da civilização política.

Os homens passam.

Os governos mudam.

As paixões eleitorais se renovam.

Mas a dignidade das instituições precisa permanecer.

Sem ela, desaparece aquilo que torna possível não apenas a diplomacia, mas a própria convivência entre as nações.

 

Maristela Basso é professora de direito internacional na USP

Instagram: @maristelabasso.adv

Linkedin: Maristela Basso Advogados

 

As opiniões dos colunistas não necessariamente refletem as de Crusoé e O Antagonista

Diários

Quem ganha na briga entre nacionalismo petista e bolsonarista

Duda Teixeira Visualizar

Crusoé nº 431: Procura-se um vice

Redação Crusoé Visualizar

"Somos próximos do governo, igual irmãos Batista"

Duda Teixeira Visualizar

"Extremamente grave", diz TI Brasil sobre encontro "discreto" articulado por Wagner

Redação Crusoé Visualizar

Trump usa crise migratória na Espanha como arma eleitoral

Redação Crusoé Visualizar

Janaina Paschoal se rebela contra cacique do PP

Redação Crusoé Visualizar

Mais Lidas

A corrida das canetas emagrecedoras nacionais vai derrubar os preços?

A corrida das canetas emagrecedoras nacionais vai derrubar os preços?

Visualizar notícia
A missão (quase impossível) de Eduardo Leite no RS

A missão (quase impossível) de Eduardo Leite no RS

Visualizar notícia
Bolsonarismo dobra aposta na irracionalidade

Bolsonarismo dobra aposta na irracionalidade

Visualizar notícia
Cafezinho com Moraes foi para falar de Lulinha?

Cafezinho com Moraes foi para falar de Lulinha?

Visualizar notícia
"Extremamente grave", diz TI Brasil sobre encontro "discreto" articulado por Wagner

"Extremamente grave", diz TI Brasil sobre encontro "discreto" articulado por Wagner

Visualizar notícia
Hilton defende cancelamento de programa com Kataguiri como "livre-mercado"

Hilton defende cancelamento de programa com Kataguiri como "livre-mercado"

Visualizar notícia
Janaina Paschoal se rebela contra cacique do PP

Janaina Paschoal se rebela contra cacique do PP

Visualizar notícia
Ler ficção para ler a ficção da política

Ler ficção para ler a ficção da política

Visualizar notícia
O declínio de João Campos, o escolhido de Lula em Pernambuco

O declínio de João Campos, o escolhido de Lula em Pernambuco

Visualizar notícia
Quem ganha na briga entre nacionalismo petista e bolsonarista

Quem ganha na briga entre nacionalismo petista e bolsonarista

Visualizar notícia

Tags relacionadas

Diplomacia

Flávio Bolsonaro

Javier Milei

< Notícia Anterior

Vêm aí as novas notas de euro

28.07.2026 00:00 | 4 minutos de leitura
Visualizar
Próxima notícia >

Crivella lidera corrida ao Senado no Rio, indica Realtime

28.07.2026 00:00 | 4 minutos de leitura
Visualizar
author

Maristela Basso

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (0)

Torne-se um assinante para comentar

Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.

Comentários (0)


Notícias relacionadas

Quem ganha na briga entre nacionalismo petista e bolsonarista

Quem ganha na briga entre nacionalismo petista e bolsonarista

Duda Teixeira
02.08.2026 14:37 4 minutos de leitura
Visualizar notícia
Crusoé nº 431: Procura-se um vice

Crusoé nº 431: Procura-se um vice

Redação Crusoé
01.08.2026 08:02 3 minutos de leitura
Visualizar notícia
"Somos próximos do governo, igual irmãos Batista"

"Somos próximos do governo, igual irmãos Batista"

Duda Teixeira
31.07.2026 17:16 2 minutos de leitura
Visualizar notícia
"Extremamente grave", diz TI Brasil sobre encontro "discreto" articulado por Wagner

"Extremamente grave", diz TI Brasil sobre encontro "discreto" articulado por Wagner

Redação Crusoé
31.07.2026 15:53 4 minutos de leitura
Visualizar notícia

Variedades

Ver mais

Mudança no design do YouTube Music destaca diferença para concorrentes

Mudança no design do YouTube Music destaca diferença para concorrentes

Visualizar notícia
Meta anuncia mudança inesperada e reels e stories serão excluídos do Instagram

Meta anuncia mudança inesperada e reels e stories serão excluídos do Instagram

Visualizar notícia
Montadora encerra produção de SUV no Brasil e aposta para elétricos

Montadora encerra produção de SUV no Brasil e aposta para elétricos

Visualizar notícia
Novas funções da IA da Meta chegam ao Brasil

Novas funções da IA da Meta chegam ao Brasil

Visualizar notícia
Adeus, Excel: ferramenta de IA do Google vai automatizar os cálculos e analisar tabelas

Adeus, Excel: ferramenta de IA do Google vai automatizar os cálculos e analisar tabelas

Visualizar notícia
Google atualiza sistema de navegação do Chrome para Android

Google atualiza sistema de navegação do Chrome para Android

Visualizar notícia

Crusoé
o antagonista
Facebook Twitter Instagram

Acervo Edição diária Edição Semanal

Redação SP

Av Paulista, 777 4º andar cj 41
Bela Vista, São Paulo-SP
CEP: 01311-914

Acervo Edição diária

Edição Semanal

Facebook Twitter Instagram

Assine nossa newsletter

Inscreva-se e receba o conteúdo de Crusoé em primeira mão

Crusoé, 2026,
Todos os direitos reservados
Com inteligência e tecnologia:
Object1ve - Marketing Solution
Quem somos Princípios Editoriais Assine Política de privacidade Termos de uso