Muito além do novo tarifaço de Trump
Brasil perdeu a capacidade de antecipar o risco regulatório global e gerenciar assimetrias em mercados maduros
O tabuleiro do comércio global acaba de sofrer um realinhamento profundo, e o Brasil, lamentavelmente, moveu-se tarde demais para evitar as ações desenhadas em Washington.
A confirmação de que o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR, concluiu a investigação sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, recomendando uma tarifa punitiva de 25% sobre uma vasta gama de produtos brasileiros, não é apenas um revés econômico de proporções severas.
Representa o ápice de um diagnóstico preciso do amadurecimento institucional do protecionismo da administração Trump e, simultaneamente, expõe as fragilidades crônicas da atual condução da nossa diplomacia corporativa e governamental.
Para quem dirigiu a complexa engrenagem da promoção de exportações e a atração de investimentos no ecossistema da Apex Brasil, posso afirmar que o anúncio traz lições amargas sobre como o país perdeu a capacidade de antecipar o risco regulatório global e gerenciar assimetrias em mercados maduros.
Diferente do açodado tarifaço linear de 2025, que acabou naufragando nos tribunais constitucionais americanos devido ao seu caráter declaradamente político de retaliação ideológica, a investida atual liderada por Jamieson Greer possui uma blindagem técnica sofisticada.
Ao ancorar as novas penalidades nas conclusões formais da Seção 301, o governo americano ergueu barreiras de difícil reversão jurídica ou diplomática.
O USTR dissecou o ambiente de negócios brasileiro para justificar as sanções, apontando seis frentes estruturais que considera práticas comerciais injustas: as barreiras ao comércio digital, as assimetrias na regulação de serviços de pagamento eletrônico, as distorções em tarifas preferenciais, a histórica morosidade na proteção à propriedade intelectual, as perenes disputas sobre o acesso ao mercado de etanol e, em um lance de puro pragmatismo político, o desmatamento ilegal.
Ao sequestrar a narrativa ambiental para transformá-la em argumento de dumping ecológico, Washington desarmou a retórica tradicional de Brasília, provando que a defesa dos interesses comerciais americanos não possui amarras ideológicas.
O desenho cirúrgico da nova lista de sobretaxas revela a face mais nítida da realpolitik americana e nos oferece um espelho de nossas próprias dependências.
Ao poupar setores estratégicos como o aeroespacial — preservando a cadeia de valor integrada da Embraer —, além de combustíveis fósseis, minerais críticos, café e carne bovina, os formuladores da política em Washington protegeram sua própria indústria e o bolso de seus eleitores contra pressões inflacionárias.
Onde o Brasil possui indispensabilidade estrutural nas cadeias globais de suprimentos, o pragmatismo de Trump prevaleceu.
Onde somos substituíveis ou politicamente vulneráveis, fomos atingidos.
Porém, vale apontar que o governo brasileiro contribuiu com sua retórica antiamericana e, ao mesmo tempo, foi incapaz de deter o processo dentro do prazo político negociado nos bastidores, algo que escancara o fato de que a nossa diplomacia pública perdeu densidade técnica e canais de interlocução de alto nível com o coração do poder decisório americano.
Linkage diplomacy
Para agravar o cenário, a diplomacia corporativa nacional agora precisa lidar com um fenômeno complexo de contaminação de agendas, a chamada linkage diplomacy. A classificação de facções criminosas domésticas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), como organizações terroristas internacionais sob a ótica de Washington demonstra que a governança econômica foi irremediavelmente fundida à agenda de segurança nacional dos Estados Unidos.
O comércio deixou de ser uma via de negociação estritamente tarifária para se transformar em moeda de troca geopolítica. Um tabuleiro em que Brasília tem dificuldade de se mover.
Diante desse cenário de terra arrasada no plano das relações entre governos, o Brasil precisa redesenhar imediatamente sua estratégia de defesa comercial, devolvendo o protagonismo à diplomacia corporativa privada e ao diálogo entre setores produtivos.
Quando o canal entre governos falha por saturação ideológica ou desalinhamento de visões de mundo, cabe ao ecossistema empresarial assumir a liderança das narrativas.
O empresariado brasileiro, em coordenação com as associações setoriais de exportação, precisa descer à arena de Washington não para fazer discursos soberanistas abstratos, mas para demonstrar, com dados econômicos rigorosos, como o encarecimento de 25% nos produtos brasileiros afetará a competitividade dos próprios distribuidores, indústrias e consumidores americanos que dependem das nossas manufaturas e insumos industriais intermediários.
A lição que a Seção 301 nos impõe em 2026 é clara e urgente: a inserção internacional do Brasil não pode ficar à mercê de voluntarismos políticos ou de uma leitura anacrônica das forças que movem as grandes potências.
O protecionismo contemporâneo não se combate apenas com chancelarias e notas de repúdio, mas com inteligência comercial, previsibilidade jurídica e uma presença ativa e sofisticada dentro dos centros onde as regras do jogo global são escritas.
Se o país não compreender que a eficiência interna e a estabilidade regulatória são as nossas melhores defesas comerciais no exterior, continuaremos assistindo, passivos, à erosão dos mercados que levamos décadas para conquistar.
Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e presidente-executivo do Instituto Monitor da Democracia
X: @mcoimbra
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