Guerra no Irã deixa arsenal dos EUA em nível crítico
Falta de mísseis nos EUA levanta dúvidas sobre capacidade de reagir a conflitos futuros com China, Rússia ou Coreia do Norte
A guerra contra o Irã, iniciada em fevereiro, segue erodindo de forma acelerada os estoques americanos de mísseis e interceptores, criando um problema estratégico que já preocupa o Pentágono e o Congresso.
Estimativas divulgadas nesta semana pelo Center for Strategic and International Studies (CSIS), think tank de Washington, apontam que o número de interceptores Patriot disponíveis caiu para menos de 827 unidades, ante cerca de 2.330 antes do conflito, queda de aproximadamente 65%. Os estoques do THAAD, sistema usado contra mísseis balísticos de longo alcance, recuaram de 452 para menos de 278 unidades.
Além disso, as forças americanas consumiram mais de 1.000 mísseis Tomahawk e cerca de 1.100 JASSM, o equivalente a cerca de um terço e um quarto dos estoques pré-guerra, sem incluir os novos ataques americanos contra o Irã, realizados desde ontem.
O ritmo de reposição, ainda segundo o CSIS, é lento: os EUA produzem hoje cerca de 183 interceptores Patriot por ano, com prazo médio de três anos e meio entre a assinatura de um contrato e a entrega. Para o THAAD, não há entregas previstas para 2026. Analistas estimam que a reconstrução completa dos arsenais pode levar de três a cinco anos.
Diante do quadro, o Pentágono acelerou contratos bilionários com a indústria bélica. O Departamento de Defesa anunciou um acordo com a Lockheed Martin de até 58,6 bilhões de dólares para produção de interceptores Patriot entre 2026 e 2032. E isso não inclui a prometida, mas ainda não oficializada, possibilidade de produção ucraniana do míssil, que também poderia demorar anos para se concretizar.
A empresa americana afirma que os recursos permitirão triplicar a produção do PAC-3 MSE até 2030 e ampliar em 50% o quadro de funcionários da fábrica em Camden, no Arkansas. Acordo semelhante foi fechado com a RTX, controladora da Raytheon, para elevar a produção anual de mísseis Tomahawk dos atuais 60 para até mil unidades.
O governo Trump também pressiona empresas de tecnologia de defesa, incluindo startups como Anduril, Castelion e Leidos, para acelerar a fabricação de munições de baixo custo. Segundo o Washington Post, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, reuniu-se em junho com executivos do setor para cobrar soluções rápidas diante da crescente escassez.
Apesar da urgência, o Congresso ainda não liberou verba adicional para a reposição dos estoques, o que trava investimentos das fabricantes em componentes e capacidade produtiva.
Os Estados Unidos também são fornecedores desses mísseis e interceptadores para diversos outros países na Europa e na Ásia, além de vários no Oriente Médio, como Israel, Arábia Saudita, Qatar, Kuwait, Jordânia e Emirados Árabes, que também estão consumindo seus estoques para enfrentar os mísseis e drones iranianos e precisarão de reposição.
Além da limitação material, cresce a pressão política sobre o governo americano. Pesquisas indicam que o apoio popular à guerra no Irã está abaixo de 40% desde o início do conflito, patamar baixo para conflitos prolongados.
O problema mais grave, segundo o CSIS, não é apenas a dificuldade de repor os estoques em três a cinco anos. É a janela de vulnerabilidade que se abre quando Washington segue gastando interceptores caros e de produção lenta, enquanto Teerã reconstrói seu arsenal em ritmo superior ao previsto pela inteligência americana e com custos mais baixos.
O resultado é uma redução concreta da capacidade dos Estados Unidos de responder a um conflito de alta intensidade em outro teatro, seja na Europa, com a Rússia, via Otan, seja no Pacífico Ocidental contra a China.
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