Faltou o carro alegórico do sítio de Atibaia
Homenagem a Lula na Marquês de Sapucaí passou muito longe da inocência e servirá de teste para a Justiça Eleitoral
O senador Sergio Moro (União-PR) identificou a ausência de uma passagem em particular da vida de Lula no desfile da Acadêmicos de Niterói no domingo, 15.
"Faltou o carro da Odebrecht e do Sítio de Atibaia no desfile do Lula", disse o ex-juiz da Operação Lava Jato, responsável pelas condenações que levaram Lula à cadeia após confirmação das sentenças em segunda instância.
"Foi um deprimente espetáculo de abuso do poder, com enaltecimento de Lula, sem escândalos de corrupção, e com ataques aos adversários, tudo financiado pelo Governo. A Coréia do Norte não faria melhor", escreveu Moro em seu perfil no X.
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De fato, a homenagem a Lula na Marquês de Sapucaí passou muito longe da inocência.
Além de omitir as passagens mais problemáticas da vida do petista, que passou meses preso pelas condenações por crimes de corrupção que viriam a ser anuladas de forma controversa, o desfile fez alusões desabonadoras gratuitas aos seus adversários e mencionou slogans do governo, como "o Brasil é dos brasileiros", e temas de campanha, como o jingle clássico de Lula e a expressão "o amor venceu o medo", que estão explícitos na letra do samba-enredo.
"É, teu legado é o espelho das minhas lições sem temer tarifas e sanções, assim que se firma a soberania, mem mitos falsos, sem anistia", diz um trecho da música, aludindo a Jair Bolsonaro, ao tarifaço de Donald Trump e às sanções da Lei Magnitsky impostas ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), sem se importar em deixar qualquer dúvida sobre o caráter eleitoreiro do desfile.
Leia também: Partido Novo vai ao TSE por inelegibilidade de Lula
Cinismo
Os defensores mais cínicos de Lula dizem que não houve pedido expresso de voto e que isso isentaria o desfile de qualquer problema legal. Mas as coisas se tornaram um pouco mais complexas na Justiça Eleitoral nos últimos anos.
Bolsonaro foi condenado à inelegibilidade por duas vezes sem precisar pedir um voto sequer.
A primeira condenação ocorreu por ele colocar em dúvida o sistema eleitoral brasileiro numa reunião com embaixadores no Palácio da Alvorada.
A segunda, por usar as comemorações do Bicentenário da Independência, em 7 de setembro de 2022, para se promover.
Nos dois casos, a maioria do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) considerou que houve desvio de finalidade no uso da estrutura da Presidência da República e de recursos públicos.
Dinheiro público
No caso do desfile da Acadêmicos de Niterói, o grande problema formal, para além da cara de pau de todos os envolvidos, é o patrocínio da Embratur.
A agência estatal de promoção do turismo patrocinou todas as 12 escolas do Grupo Especial do Rio de Janeiro, mas deveria tomar o cuidado de não promover uma que tem uma mensagem político-eleitoral tão explícita, e logo em ano de eleição.
Mais do que qualquer outra coisa, esse desfile servirá de teste para a Justiça Eleitoral brasileira, que se hipertrofiou nos últimos anos, anabolizada pelo discurso de enfrentamento a Bolsonaro — que levou, inclusive, ao adiamento de um documentário do qual se sabia muito menos do que o desfile promocional do domingo.
A depender da decisão, quem estará colocando o sistema eleitoral brasileiro em dúvida é o próprio TSE.
Leia mais: O veneno eleitoral de Moraes
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Comentários (1)
Marcos
2026-02-16 11:34:05TUDO VENDIDO.