Derrota nas 'midterms' faria Trump recuar?
Lucas Martins acredita que possível mudança de controle das Casas dificilmente freará 'modus operandi' do republicano
Em seu primeiro ano de mandato, o presidente Donald Trump (foto) utilizou tarifas comerciais e decretos para alcançar seus objetivos de governo.
Suas recentes declarações sobre a Groenlândia reforçam seu estilo peculiar de fazer política, que provoca reações da oposição.
Em 3 de novembro, os americanos vão às urnas para as chamadas midterms, ou eleições de meio de mandato.
Nelas, todos os 435 assentos da Câmara dos Representantes e um terço do Senado estarão em disputa, o que abre a possibilidade de os republicanos perderam o comando das duas Casas.
Crusoé conversou com Lucas de Souza Martins, pesquisador da Temple University, na Pensilvânia, sobre o impacto de uma eventual mudança no controle do Congresso nas ambições de Trump.
Leia a íntegra da entrevista:
Trump poderia anexar a Groenlândia se quisesse? Quais as limitações internas a Constituição impõe?
Trump não pode anexar a Groenlândia através de uma ordem executiva. Ele precisaria de apoio do Congresso, que poderia aprovar uma autorização para anexar.
O interessante é que a Constituição americana não tem nenhum tópico impedindo a aquisição de novos territórios. Não há nada na Constituição nesse sentido.
Então, teoricamente o Congresso poderia autorizar o presidente, embora isso esbarre em normas de direito internacional. Pelas regras internas americanas, Trump deveria ter apoio do Congresso para fazer uma anexação.
O que costuma contar nas eleições 'midterms'? Os americanos sempre votam contra o presidente?
Nas eleições de meio de mandato ocorre a renovação completa da Câmara dos Representantes.
Aqui nos EUA, eles têm dois anos de mandato.
No Senado, 35 cadeiras estarão em jogo, o que representa a maioria das 50.
Hoje, as duas Casas possuem maioria republicana. Tradicionalmente, pelo menos nos últimos 80 anos, a tendência é que a oposição ao presidente tenha mais sucesso, especialmente se o presidente tiver uma aprovação abaixo de 50%, como é o caso de Trump.
Isso não significa que, perder as eleições de meio de mandato, o partido ou o presidente vá enfrentar riscos de perder a Casa Branca na eleição seguinte. Os casos mais emblemáticos foram Ronald Reagan e Barack Obama que asseguraram suas reeleições.
Trump já falou sobre sofrer impeachment caso perca as midterms. É bravata?
Para remover o presidente da Casa Branca, é preciso ter uma eleição no Senado em que três quartos da Casa aprovem a saída do presidente.
Mesmo se ele sofra um impeachment na Câmara dos Representantes, seria muito difícil a oposição ter três quartos no Senado para aprovar sua saída.
Nos Estados Unidos, jamais aconteceu de um presidente sofrer impeachment e ser removido do cargo.
A Suprema Corte tem tentado conter algumas ações de Trump?
A Suprema Corte tem sido, de uma forma majoritária, favorável às ações de Trump.
Hoje, o tribunal tem uma maioria conservadora. No primeiro ano de mandato, os justices têm entrado em conflito com Cortes inferiores e revertido ações que vão contra o governo federal.
Por exemplo, a Suprema Corte apoiou o banimento de transgêneros das Forças Armadas americanas e os os cortes em agências federais em projetos de ações sociais, de direitos humanos.
Por isso, dá para dizer que Trump tem encontrado acolhimento das suas ações na Suprema Corte.
Onde Trump vai parar? Ele vai recuar depois das midterms?
Não creio que um possível revés nas midterms vá gerar um recuo.
É difícil pensar em recuo de Trump na forma de agir, nas tarifas, ameaças, anexações... Isso faz parte do 'modus operandi' do presidente e dá para dizer que, por mais que haja uma mudança no controle do Congresso, ele vai continuar agindo.
Trump não esperou apoio do Congresso para capturar Maduro ou atacar o Irã, em parceria com Israel.
Tudo isso foi feito sem anuência do Congresso. Ele tem agido de uma forma autônoma, por mais que o Congresso seja republicano.
Não dá para esperar qualquer tipo de recuo - mesmo que seja do ponto de vista eleitoral - para atrair eleitorado.
Ele vai continuar investindo nas suas ações, até porque as eleições de midterms não sinalizam enfraquecimento do presidente nas eleições presidenciais.
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