Como as ditaduras morrem
O cientista político americano Bruce Bueno de Mesquita estuda processos políticos com base na teoria dos jogos
O cientista político americano Bruce Bueno de Mesquita, professor na New York University, é conhecido por aplicar a teoria dos jogos para prever o futuro da política.
Uma de suas previsões mais conhecidas se deu em 2009, quando afirmou que o Irã nunca chegaria a concluir a produção de uma bomba nuclear, o que não ocorreu até agora.
Autor do livro Manual dos Ditadores, Bruce também faz previsões sobre como as ditaduras acabam.
Em entrevista para Crusoé, em 2020, ele afirmou:
"Em geral, ditadores passam a correr risco quando estão muito velhos ou doentes. Quando isso acontece, seus apoiadores já não esperam ser recompensados no futuro. Às vezes, bastam rumores para que o ditador perca suporte. Em 2017, o ditador do Zimbábue, Robert Mugabe, ficou sem apoiadores, porque eles acharam que ele estava enfermo. O xá Reza Pahlevi não contou com o Exército para reprimir os protestos no Irã, no final dos anos 1970, porque os militares achavam que ele estava morrendo. Uma matéria do New York Times tinha dito que ele estava tentando esconder a evolução de seu câncer", afirmou Mesquita.
"Um dos erros mais comuns que vejo analistas cometer é pensar que a destruição da economia pode derrubar um ditador. Não é verdade. Na Coreia do Norte, a economia vai muito mal. Mas sempre foi assim. Apesar disso, Kim Il-Sung morreu durante o sono. Seu filho, Kim Jong-il morreu durante o sono. E seu neto, Kim Jong-un, também deve seguir o mesmo caminho. Ele só vai enfrentar problemas se ficar doente ou se as pessoas começarem a achar que sua saúde não está boa. Nesse caso, os militares e os funcionários públicos deixarão de lhe prestar obediência, porque eles saberão que não serão mais recompensados. Começarão a procurar um substituto para o seu líder", disse o cientista político.
Segundo Mesquita, um ditador deve montar a menor coalizão de governo possível, para não ter de gastar muito na compra de apoio.
Assim, ditadores podem governar para um grupo restrito formado apenas por aqueles que são responsáveis por mantê-lo no poder.
O problema aparece quando os membros dessa coalizão restrita deixam de ver motivos para seguir apoiando o ditador. Isso ocorre quando os aliados entendem que o ditador não terá como satisfazer suas necessidades no futuro.
Os protestos que começaram na semana passada no Irã já se espalharam por 185 cidades.
Policiais atiraram contra os manifestantes e já mataram 538 pessoas.
Nas ruas, iranianos pedem a morte do líder supremo do Irã, Ali Khamenei (foto).
Khamenei está com 86 anos. Ele já enfrentou um câncer de próstata em 2014 e uma obstrução intestinal em 2022.
O homem que tinha sido escolhido para ser o sucessor de Khamenei, o presidente Ebrahim Raisi, morreu em um acidente de helicóptero em 2024.
O risco, então, é de que os militares da Guarda Revolucionária do Irã entenderem que não faz mais sentido continuar apoiando Khamenei.
Eles então poderiam se antecipar e promover um golpe de Estado para evitar uma revolução, a qual derrubaria a todos e instalaria um caos generalizado.
Vale acompanhar.
Os comentários não representam a opinião do site; a responsabilidade pelo conteúdo postado é do autor da mensagem.
Comentários (1)
Flavio marega
2026-01-12 13:49:11"revolução, a qual (que) derrubaria...