Bolsonarismo dobra aposta na irracionalidade
Eduardo Bolsonaro faz live com marqueteiro argentino Fernando Cerimedo, aquele que recebeu material do ajudante de ordens Mauro Cid
O bolsonarismo se parece com o trumpismo em sua rejeição aos fatos.
Essas duas correntes políticas não buscam o voto com argumentos racionais, apontando para fatos concretos. Em vez disso, fisgam o eleitor pela emoção, despertando o ódio e confundindo a mente com conspirações infundadas.
Nos Estados Unidos, Donald Trump investiu nas teses de que Barack Obama não era americano, de que a eleição de 2020 foi fraudada com ajuda da China, de que vacinas causam autismo e de que imigrantes haitianos comiam animais de estimação em Springfield, Ohio.
No Brasil, o bolsonarismo aposta na tese de que as urnas eletrônicas foram fraudadas.
"Pode esquentar a fraude"
Na quinta, 23, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro gravou uma live com o marqueteiro argentino Fernando Cerimedo (foto), novamente especulando que as urnas brasileiras foram fraudadas.
"No Nordeste do Brasil, é esperado que seja uma vitória da esquerda... Por ali, eles ficam mais confortáveis para fazer uma alteração. Uma provável, talvez, alteração. Porque, no final das contas, tem que entrar na sua mente... Tem que aceitar aquilo, senão você vai acabar o quê? Se revoltando. Você não vai acreditar. Então, para que ocorra da melhor maneira possível, com a maior estabilidade política possível, eles têm que prestar atenção nesses fatos", afirmou Eduardo.
"A fraude estava nas máquinas. Mas no centro de processamento, você pode trocar o log. Pode disfarçar o que aconteceu", respondeu o argentino.
"Pode esquentar a fraude", seguiu Eduardo.
"Eles não contavam que a gente ia fazer uma auditoria de cada log da máquina. O problema é que [em 2018], a diferença era muito maior. Foi muito difícil fazer a fraude. Porque a diferença entre o seu pai [Jair Bolsonaro] e o segundo [Fernando Haddad] era muito grande", disse Cerimedo.
"O hacker fez o trabalho dele [em 2018]. Isso é em teoria, pessoal. Não tenho como provar porque não deixam investigar. Como o PT não ganhou, ele [hacker] não deve ter ganho o seu pagamento. E daí, "p... da vida", ele deu aquela declaração na entrevista à TecMundo. Só que a alteração que ele fez não deu — sei lá, 10 ou 15 milhões de votos — não foi suficiente para o Fernando Haddad ganhar de Jair Bolsonaro", complementou Eduardo.
"Nosso pessoal que fez"
Cerimedo não é um especialista em tecnologia de urnas eletrônicas. É um marqueteiro político próximo de Eduardo.
Os dois se encontraram pessoalmente em Buenos Aires em 2022. Mais tarde, Cerimedo gravou um longo vídeo falando das eleições brasileiras que viralizou.
Esse vídeo foi ao ar em 4 de novembro, cinco dias após o segundo turno, e foi amplamente divulgado por militares no Brasil.
Um deles, o tenente-coronel Sérgio Ricardo Cavaliere, mandou uma mensagem animada em conversa de WhatsApp para Mauro Cid, o então ajudante de ordens do então presidente Jair Bolsonaro, falando de um material de hackers, os quais teriam encontrado problemas nas urnas.
Cid respondeu: “Nosso pessoal que fez… Haaahahahaahha. Isso foi a base do argelino”. A referência, provavelmente, era ao “argentino” Cerimedo.
Não há, pois, qualquer razão para considerar Cerimedo como um especialista em urnas eletrônicas.
Os diálogos coletados pela Polícia Federal em 2022 mostram que os militares e Mauro Cid tentaram avidamente achar fraudes na eleição, mas nada encontraram.
Quando Eduardo, agora, convida Cerimedo para uma live, ele não está investigando uma verdade, como alega.
Está apenas disseminando desinformação.
E o momento pode não ser ao acaso.
Depois da notícia de que seu irmão, o senador e pré-candidato Flávio Bolsonaro, emitiu uma nota de 500 mil reais para uma empresa ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro, o bolsonarismo deveria estar explicando qual serviço valioso foi prestado.
Contudo, como explicar o inexplicável é impossível, o bolsonarismo aposta na irracionalidade.
Leia em Crusoé: O argentino das urnas
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