Atos "indicam necessidade de afastamento de Tofolli do caso Master", diz jurista
Ministro do Supremo tomou uma série de decisões consideradas "muito incomuns" na investigação que apura fraudes financeiras
Decisões heterodoxas do ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), na investigação que apura fraudes financeiras envolvendo o Banco Master indicam que o magistrado precisa deixar a relatoria do caso. A análise é do doutor em direito e professor de direito processual penal na Universidade de São Paulo (USP) Gustavo Badaró.
"No meu ponto de vista, a própria prática dos atos muito incomuns indicam essa necessidade de afastamento do Ministro Dias Tofolli da relatoria do inquérito do Banco Master", afirma o especialista.
Entre os atos citados por Badaró, está a determinação de acareação. "Não tem sentido decretar acareação de testemunhas ou investigados que ainda não prestaram depoimentos. A acareação ocorre se os depoimentos já foram prestados e há divergências em pontos relevantes", pontua.
"Na verdade, o que foi determinando, de ofício, pelo ministro relator foi a oitiva de testemunhas durante o inquérito. E não há fundamento legal para isso, pois o artigo 209 do Código de Processo Penal, que permite a oitiva de testemunhas, somente tem aplicação na fase do processo: 'O juiz, quando julgar necessário, poderá ouvir outras testemunhas, além das indicadas pelas partes'".
Como atos muito incomuns ainda, Badaró cita a determinação de que os bens apreendidos na segunda fase da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, não fossem examinados pela corporação, mas encaminhados lacrados para o STF; a ordem posterior para que ficassem acautelados com a Procuradoria Geral da República (PGR); e a nomeação, pelo ministro, de quatro peritos da PF para ter acesso ao material.
"Em regra, os bens apreendidos na fase de investigação ficam sob a custódia da autoridade policial. Até porque é da análise do seu contudo que se definem as linhas investigativas a serem seguidas. Seja para confirmar e aprofundar a investigação no sentido inicial, seja para abandonar tal linha e passar a investigar outra", explica o jurista.
"A decisão indicaria uma atuação mais proativa de um juiz na fase de investigação. Se seria ele, e não o delegado de Polícia, que examinaria o material, isso indica que a linha investigativa sofreria interferência do juiz. E não há como o julgador determina quais caminhos a investigação deverá seguir e quais fontes de provas deverão ser buscadas na investigação. Isto é, antes mesmo da denúncia".
Badaró ressalta que "investigação se realiza mediante a formulação de hipóteses provisórias, de acordo com os elementos disponíveis. E quem formula tais hipóteses se compromete psicologicamente com a hipótese formulada".
"O STF reconheceu que no sistema acusatório, o juiz tem poderes instrutórios supletivos, podendo terminar a produção de provas, de ofício, mas somente na fase processual. Não na fase preliminar, de investigação".
Dessa forma, pontua o doutor em direito, "há um problema de aparência de imparcialidade". "Como já decidiu a Corte Europeia de Direitos Humanos, no julgamento do Caso Delcourt vs. Bélgica (sentença de 17.01.1970): 'justice must not only be done; it must also be seen to be done' [A justiça não deve apenas ser feita; ela também deve ser vista como sendo feita]".
Ao olhos da sociedade, afirma Badaró, o julgamento do caso do Banco Master precisa ser um julgamento cuja imparcialidade não se possa duvidar. "É preciso que a sociedade acredite que a justiça está sendo feita. Por isso, suspeitas de parcialidade já justificam o afastamento do julgador", conclui.
PGR arquivou pedido de afastamento
Como mostrou O Antagonista, no último dia 15 de janeiro, a Procuradoria-Geral da República arquivou um pedido de deputados federais para que fosse apresentada arguição de impedimento e suspeição para afastar Toffoli da relatoria.
A informação foi confirmada na quinta-feira, 22, por Carol de Toni (PL-SC), uma das autoras do pedido.
A representação era assinada também pelos deputados Carlos Jordy (PL-RJ) e Adriana Ventura (Novo-SP). Os parlamentares justificavam o pedido citando a viagem que Toffoli fez a Lima, no Peru, na mesma aeronave em que se encontrava o advogado Augusto Arruda Botelho, defensor do diretor de compliance do Banco Master, Luiz Antônio Bull.
“O caso a que se refere a representação já é objeto de apuração perante o Supremo Tribunal Federal, com atuação regular da Procuradoria-Geral da República. Não há, portanto, qualquer providência a ser adotada no momento. Arquive-se o documento“, disse o procurador-geral da República, Paulo Gonet, em sua decisão.
Carol de Toni afirmou nesta quinta que, diante do arquivamento, apresentou um novo pedido à Procuradoria-Geral da República para afastar Toffoli da condução dos processos relacionados ao caso Banco Master, considerando novos fatos e vínculos objetivos revelados nas investigações. Jordy e Adriana Ventura assinam a nova solicitação também.
Eles ressaltam que a iniciativa ocorre após declarações públicas de Gonet, à imprensa, de que não teria sido formalmente provocado a se manifestar sobre o impedimento do ministro. Carol de Toni afirma que a declaração não corresponde à realidade, pois a representação anterior – arquivada por Gonet – foi apresentada em dezembro.
Ainda conforme a parlamentar, o novo pedido apresenta seis fundamentos, enquadrados no artigo 252 do Código de Processo Penal. Entre eles:
- Viagem privada do ministro com advogado diretamente ligado a investigados, seguida da centralização do processo e imposição de sigilo;
- Vínculo societário pretérito entre a esposa do ministro e advogado ligado ao controlador do Banco Master;
- Relações societárias entre familiares do ministro e parentes diretos de investigado preso no caso;
- Indícios de práticas ilegais no empreendimento Tayayá Resort, com denúncias de funcionários;
- Retirada da custódia das provas da Polícia Federal e escolha direta de peritos pelo relator; e
- Transferência de ativos ligados ao empreendimento para offshore em paraíso fiscal, dificultando a fiscalização.
Até o momento, não há decisão da PGR sobre a nova solicitação.
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Comentários (1)
Clayton de Souza Pontes
2026-01-23 11:31:01O PToffoli é que sabe dos motivos, republicanos ou não, para seu apego e voluntarismo nessa relatoria. Faria um bem a todos se se desapegasse