Ativismo de figurino e discurso eleitoral na ONU
O mais prestigiado púlpito da governança global foi impiedosamente apequenado — convertido em mero estúdio de gravação para a propaganda partidária
A tradição diplomática brasileira de iniciar a Assembleia Geral das Nações Unidas não nasceu por acaso.
Foi edificada, ao longo de décadas, sobre três pilares fundamentais: a altivez institucional, a neutralidade pragmática e a visão de Estado.
Desde 1947, cabe ao Brasil a honra de proferir o discurso de abertura dos debates gerais em Nova York — um privilégio histórico que concede ao país uma tribuna única e um peso respeitado no xadrez internacional.
Contudo, o pronunciamento de Lula (foto) na abertura da 81ª Assembleia Geral esvaziou essa herança.
Em vez de erguer a voz do país diante dos dilemas do mundo, o presidente preferiu atender às conveniências da política doméstica.
O mais prestigiado púlpito da governança global foi impiedosamente apequenado — convertido em mero estúdio de gravação para a propaganda partidária.
Do púlpito das nações ao palanque eleitoral
A intervenção em Nova York escancarou uma estratégia voltada exclusivamente ao consumo interno: a fabricação de cortes para redes sociais e peças de campanha.
Ao transportar o debate eleitoral brasileiro para o plenário internacional e exigir do eleitorado uma escolha maniqueísta entre "democracia e negacionismo", Lula atropelou as regras mais elementares de liturgia e decoro diplomático.
Trata-se de um desvio grave de finalidade. Chefes de Estado que compreendem a envergadura de suas nações não rebaixam o palco da diplomacia mundial para atacar adversários domésticos nem para garimpar dividendos eleitorais de curto prazo.
Militância Estética
O esvaziamento do profissionalismo diplomático, porém, não se limitou às palavras do presidente. Estendeu-se à conduta da primeira-dama, Janja.
Pelo terceiro ano consecutivo, ela ocupou assento na abertura da Assembleia Geral, ostentando um casaco com o bordado tradicional palestino (Tatreez) — um gesto explicitado em suas redes sociais como ato deliberado de "resistência e memória".
Trata-se, na prática, de uma provocação desnecessária a Israel e de um aceno militante que compromete a postura histórica do país.
A representação de um Estado exige sobriedade, equilíbrio e alinhamento estrito com a tradição profissional do Itamaraty.
A política externa de uma nação do porte do Brasil não pode ser refém do ativismo pessoal ou do virtue signaling de guarda-roupa.
Ao converter a presença oficial do Estado brasileiro em palanque estético-ideológico num dos conflitos mais complexos da geopolítica contemporânea, a primeira-dama rebaixa a diplomacia a proselitismo.
Cavalo de Troia Digital
Se no campo simbólico o governo tropeça no proselitismo, no terreno estratégico atinge o ápice da contradição.
Da tribuna da ONU, Lula disparou ataques inflamados contra o "neoliberalismo digital sem regras" e as big techs ocidentais.
Sob o pretexto de regular a tecnologia e defender a soberania nacional sobre inteligência artificial (IA), o governo brasileiro atua, na prática, como mero facilitador da expansão e da hegemonia tecnológica chinesa em solo pátrio.
O contraste é gritante: enquanto o presidente esbraveja contra plataformas americanas em Nova York, sua gestão pavimenta o caminho para que conglomerados estatais de Pequim capturem a infraestrutura de dados do Brasil.
Em vez de edificar uma autonomia digital autêntica — construída por meio de parcerias estratégicas com ecossistemas democráticos de ponta —, o país entrega sua infraestrutura tecnológica, seus minerais críticos e os dados de seus cidadãos a um regime autocrático.
Para um mandatário que exalta verbalmente a soberania, essa postura revela-se, paradoxalmente, submissa e entreguista. Fica claro que existem dois pesos e duas medidas quando Lula faz questão de se afastar dos EUA e depois se aproxima de Pequim.
Urgência da reconstrução geopolítica
A passagem da comitiva brasileira por Nova York expôs as vísceras de uma política externa à deriva, desprovida de bússola estratégica.
No palco internacional, o governo adota um duplo jogo constrangedor: adota uma retórica inflamada contra o Ocidente para satisfazer sua base ideológica, enquanto busca, nos bastidores, acenos e conciliações pragmáticas em busca de conveniência política.
O Brasil precisa resgatar, com urgência, a maturidade e a altivez de sua atuação internacional.
A diplomacia de uma potência emergente não pode servir de quintal para ambições eleitorais imediatistas, tampouco de vitrine para o ativismo vaidoso de ocupantes temporários do poder.
O risco real é o isolamento geopolítico. Para voltar a ser ouvido com a gravidade que os tempos atuais exigem, o Brasil deve encerrar a diplomacia do panfleto, abandonar o ativismo de figurino e reconstruir uma estratégia externa firme — fundada na verdadeira autonomia tecnológica, no pragmatismo econômico e na defesa inegociável dos interesses soberanos do Estado brasileiro.
Márcio Coimbra é CEO da Casa Política e presidente-executivo do Instituto Monitor da Democracia
X: @mcoimbra
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