A tolerância seletiva dos americanos na Guerra do Irã
"A população americana passou a aceitar ataques cirúrgicos, desde que com baixo custo humano e financeiro", afirma Lucas de Souza Martins
Os americanos são refratários a guerras longas no Oriente Médio, são mais propensos a aceitar ações militares breves, como a que está ocorrendo atualmente no Irã.
"Desde os atentados de 11 de setembro de 2001, a população americana passou a aceitar ataques cirúrgicos, operações de contraterrorismo e ações de curto prazo, desde que com baixo custo humano e financeiro", afirma Lucas de Souza Martins, professor de história americana na Temple University, na Filadélfia.
Crusoé conversou com o professor para entender como o conflito pode repercutir na Casa Branca.
Qual tem sido a capacidade de os Estados Unidos influenciarem os acontecimentos no Irã ao longo da história? Ou seria melhor olhar para a capacidade de o Irã influenciar a política americana?
Durante décadas, especialmente após o golpe de 1953 no Irã, os EUA tiveram enorme influência sobre o Irã, apoiando o xá Reza Pahlevi e moldando sua política externa e militar.
A Revolução Islâmica de 1979 rompeu essa influência de forma abrupta. A dinâmica se inverteu.
A crise dos reféns colocou o Irã no centro da política doméstica americana, prejudicou a imagem internacional dos EUA e contribuiu para a derrota eleitoral de Jimmy Carter, em 1980.
O sr. poderia comparar a atitude de Carter em relação ao Irã com a de Trump?
A postura do presidente Jimmy Carter (1977 a 1981) diante do Irã foi essencialmente reativa. Ele enfrentou uma revolução inesperada, a queda de um aliado estratégico e uma crise de reféns que limitou drasticamente suas opções.
Carter priorizou a diplomacia, tentou evitar uma escalada militar e autorizou apenas uma operação de resgate limitada, que fracassou.
Sua política foi marcada pela contenção e pela tentativa de preservar vidas americanas, mesmo ao custo de parecer indeciso ou fraco aos olhos de parte da opinião pública.
A abordagem de Donald Trump, décadas depois, foi quase o oposto. Em um contexto de rivalidade prolongada e de ações indiretas do Irã contra interesses americanos, Trump adotou uma estratégia de dissuasão ativa, baseada em ataques preventivos e demonstrações de força.
Sua administração justificou ações militares como necessárias para impedir ameaças iminentes e para restaurar a credibilidade americana no Oriente Médio.
Assim, enquanto Carter reagiu a eventos que escapavam ao seu controle, Trump buscou moldar o comportamento iraniano por meio de pressão máxima e ações antecipatórias.
A comparação é válida, desde que se reconheça que os contextos eram radicalmente diferentes: Carter lidava com um regime recém‑instalado e imprevisível; Trump com um Estado consolidado, envolvido em conflitos regionais e com décadas de antagonismo acumulado.
Qual é a tolerância da população americana para conflitos no Oriente Médio? Qual era em 1979?
Em 1979, a tolerância da população americana para novos conflitos no Oriente Médio era muito baixa.
O trauma do Vietnã ainda era recente, e havia forte resistência a qualquer envolvimento militar prolongado.
A crise dos reféns gerou indignação e frustração, mas não se traduziu em apoio a uma guerra aberta contra o Irã. A opinião pública queria uma solução rápida e pacífica, e via com desconfiança qualquer ação que pudesse levar a outro atoleiro militar.
Nas décadas seguintes, especialmente após os atentados de 11 de setembro, a tolerância para operações militares no Oriente Médio aumentou, mas de forma seletiva.
A população americana passou a aceitar ataques cirúrgicos, operações de contraterrorismo e ações de curto prazo, desde que com baixo custo humano e financeiro.
No entanto, a experiência do Iraque e do Afeganistão reduziu drasticamente o apoio a guerras prolongadas. Hoje, a sociedade americana tende a apoiar ações limitadas e precisas, mas rejeita intervenções que pareçam abertas, caras ou intermináveis.
Os americanos estão dispostos a perdoar presidentes quando conflitos no Irã afetam as condições de vida dentro dos EUA?
Historicamente, os americanos raramente perdoam presidentes quando crises envolvendo o Irã têm impacto negativo direto sobre a vida cotidiana.
A crise dos reféns em Teerã prejudicou Jimmy Carter não apenas pela humilhação internacional, mas também pelo impacto econômico, especialmente no preço do petróleo, que agravou a inflação e o descontentamento interno.
Em geral, o eleitorado americano responsabiliza o presidente por instabilidade econômica, aumento do custo de vida e sensação de insegurança, mesmo quando esses fatores têm causas externas.
Há, porém, exceções. Presidentes podem ser perdoados, e até recompensados politicamente, quando conseguem demonstrar liderança clara, obter resultados rápidos ou evitar baixas americanas.
A opinião pública tende a valorizar ações decisivas que reforcem a segurança nacional sem impor sacrifícios significativos à população.
Mas, quando o conflito com o Irã se traduz em custos econômicos ou em percepção de fraqueza, o presidente costuma pagar o preço nas urnas.
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Comentários (1)
Wilson Gobara
2026-03-11 21:17:44Trump avaliou muito mal as opções do Irã. Seus estrategistas esqueceram que o estreito de Ormuz é realmente estreito. É aí que a vaca está indo pro brejo.