A indignação que transborda o bolsonarismo
A aparente impotência de André Mendonça pode produzir identificação com a impotência cotidiana do cidadão pagador de impostos
A sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) de 15 de setembro pode ter produzido uma vitória de curtíssima duração para Alexandre de Moraes e um problema eleitoral maior para Lula.
Enquanto os ministros disputavam o procedimento, a imagem transmitida era a de que, mesmo dentro do tribunal, enfrentar determinadas forças parece quase impossível.
O plenário deveria discutir a possibilidade de investigar Moraes no caso envolvendo Daniel Vorcaro.
Não se tratava de decidir sua culpa. A sessão, porém, ficou presa a questões preliminares e à discussão sobre reunir procedimentos.
Uma troca de passes na própria área, típica de time que quer ganhar tempo. No final, Flávio Dino pediu vista. A decisão de fundo ficou para depois.
Na minha leitura, três posturas ficaram visíveis. A primeira foi a da preservação individual, representada por Dias Toffoli e Nunes Marques, que anunciaram, respectivamente, suspeição e impedimento.
A segunda foi a da defesa de Moraes, protagonizada por Gilmar Mendes e Flávio Dino. A Procuradoria-Geral da República (PGR), sob Paulo Gonet, já havia contestado a regularidade das diligências conduzidas por Mendonça. A impressão era de um grupo articulado para conter a pressão.
A terceira foi personificada por André Mendonça, o nome mais identificado com o bolsonarismo naquele confronto.
Ele não estava sozinho no placar. Fachin, Fux e Cármen Lúcia também votaram pela análise separada dos casos. Quando houve a interrupção, o placar estava quatro votos a três. O isolamento de que falo é a imagem política produzida pelo embate.
Poder pela força
Moraes, Dino e Gilmar conhecem o exercício do poder.
Sabem usar a palavra e o procedimento para conduzir politicamente uma discussão. Dino sentou na pauta e ocupou a palavra durante grande parte do dia.
No curto prazo, esse traquejo funcionou. Parece vitória, mas não é.
O eleitor pendular, aquele que ainda pode mudar de voto, pode interpretar a habilidade do trio Alexandrino como demonstração de poder pela força.
“Não deveria, mas existem pessoas tão poderosas que até as perguntas encontram obstáculos.”
Nesse ponto, Mendonça ganha mais importância na urna que Flávio Bolsonaro.
A aparente impotência de um ministro pode produzir identificação com a impotência cotidiana do cidadão pagador de impostos.
Flávio pode se tornar voto de protesto para esse indivíduo.
Justiceiro
Guarde esta frase, que escutei hoje de um amigo conhecedor dos corredores de Brasília: “Não é que o brasileiro queira justiça. O brasileiro gosta de ser justiceiro”.
As manifestações de 2013 e a Lava Jato, em 2015 e 2016, ajudam a ilustrar esse comportamento. Diante de uma situação percebida como injusta, muita gente procura um meio de dar o troco.
A vingança “contra o sistema” pode vir pelo voto.
Isso me lembrou o Big Brother.
Um grupo articula contra um participante, manda o sujeito ao paredão e comemora. Só que o público pirraça e ele volta. Vai de novo, volta outra vez.
A repetição pode transformar a antipatia em solidariedade. O público brasileiro adora patrulhar uma perseguição.
Quanto mais desigual é o confronto, mais fácil fica escolher alguém para proteger, inclusive alguém de quem antes não gostava, como Flávio Bolsonaro, filho de quem indicou o “terrivelmente evangélico” André Mendonça.
Minha impressão é que a sessão de ontem mexeu com o eleitor do meio e inflamou ainda mais o segmento evangélico.
Lula e Flávio seguem sendo os candidatos. Mas André Mendonça contra Alexandre de Moraes pode passar a representar o conflito mais importante na cabeça do eleitor, dando sentido à escolha de quem não se entusiasmava com Flávio.
Lula tenta se desvincular, mas já aparece nas pesquisas como um representante da continuidade.
Diante de um desequilíbrio institucional percebido como grave, a resistência pessoal a um candidato, mesmo controverso, perde prioridade.
Há uma diferença enorme entre gostar de um remédio e o considerar necessário.
Uma onda eleitoral cresce quando as pessoas encontram uma razão forte o bastante para superar suas restrições. São poucos os votos em disputa, mas eles podem decidir uma eleição apertada.
Quaest
Na pesquisa Quaest do início da semana, um contraste chamou minha atenção. Na intenção de voto no segundo turno, Flávio Bolsonaro passa à frente de Lula: 42% a 40%. Quando a pergunta é quem vencerá a eleição, Lula aparece com 54%, contra 31%.
Nas palestras pelo Brasil, percebi que mais pessoas queriam mudança do que acreditavam nela. Um motivo se destacava: “O sistema é muito forte e não conseguimos vencer pelo voto”.
Se essas pessoas passarem a acreditar que é possível, uma profecia autorrealizável pode ganhar força. Flávio liderando o primeiro turno pode desencadear uma onda de mudança vinda de quem não imaginava ter esse poder.
A consequência eleitoral mais relevante da sessão pode aparecer entre os que ainda procuravam uma justificativa para decidir: a urgência de colocar contrapesos no poder.
Quando a urgência aumenta, esperar pelo segundo turno deixa de parecer uma escolha confortável.
Não vejo possibilidade de a eleição terminar em um turno, mas vejo um grande movimento de voto útil, sobretudo entre eleitores preocupados com o Judiciário. A adesão a Flávio decorreria da expectativa de enfrentar o arranjo atual, mesmo que o candidato preferido continue sendo outro.
Na minha avaliação, foi um erro político e de timing acreditar que controlar o processo bastaria para controlar seu efeito.
Moraes e seus aliados ganharam tempo dentro do Supremo.
Mas essa crise transborda o bolsonarismo. Transborda a própria eleição. Faz transbordar a paciência do pagador de impostos, que sustenta as instituições e espera que a lei também alcance os poderosos.
O Supremo pode adiar um julgamento. Não pode pedir vista da indignação de um país.
Roberto Reis é estrategista eleitoral
X: @RobertoReis
Instagram: robertoreisbr
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