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    Edição Semana 368

    O agente secreto da banalidade

    Filme de Kleber Mendonça Filho é thriller que não consegue produzir um acúmulo de tensão, abusa do binarismo e gera apenas tédio

    Redação Crusoé
    5 minutos de leitura 23.05.2025 03:30 comentários 4
    Wagner Moura em cena de O Agente Secreto. Divulgação
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    Fui assistir com grande curiosidade a O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, na competição oficial aqui no Festival de Cannes.

    Consegui uma sessão às 22h30 no Cinéma Olympia de Cannes, e cheguei muito contente em ver a reconstituição da minha cidade nos anos 1970 – uma época que não foi bem representada no cinema, uma vez que a cidade ficou décadas sem a produção de longas-metragens de ficção. 

    Fiquei feliz ainda com a coincidência: o cinema tem o mesmo nome do cinema do meu bisavô, Orlando Teófilo, que existiu no bairro do Arruda no Recife nos anos 1960 e tinha quase mil lugares. 

    A primeira cena já apresenta vários dos defeitos do filme: é extensa demais, a coloração é estranha e forçada, e o contraste entre atores e não atores é muito grande, o que prejudica o realismo da história.

    A primeira cena parece um vídeo de Porta dos Fundos, aquele estilo de humor cotidiano com estranhamento, e a imagem colabora nesse sentido: é excessivamente clara, até estourada (esse povo não sabe mais fotometrar um plano?).

    A diferença é que no filme O Agente Secreto a cena muito longa, o que não aconteceria em um vídeo para o Youtube.

    Marcelo (Wagner Moura) chega ao Recife aparentemente fugindo, não sabemos ainda de quê, e é Carnaval. Uma série de estranhamentos vão acontecer por causa dessa situação.

    O problema é que esses estranhamentos são todos semelhantes, o que produz tédio, e não medo. 

    Por exemplo: a La Ursa aparece diversas vezes assombrando o personagem, só que ela não tem nada de assustadora – é só uma fantasia de Carnaval.

    Nem o filme consegue nos convencer que ela é sinistra.

    O filme é baseado numa premissa interessante: o brasileiro, e mais especificamente o pernambucano, esse povo festeiro que faz Carnaval, é na verdade um povo extremamente violento, e até sádico. 

    Nesse sentido, O Agente Secreto é muito superior a Bacurau. Ao menos o enredo se sustenta um pouco mais.

    Mas ser melhor que Bacurau é fácil, trata-se de um dos piores filmes que o cinema brasileiro legou à humanidade, junto com Nosso Lar, de Wagner Assis, e Deserto Feliz, de Paulo Caldas. 

    O problema é que esse thriller não consegue produzir um acúmulo de tensão. O motivo é que Kleber recorre sempre à banalidade –  os planos e cenas são sempre excessivamente longos e cansativos.

    Por exemplo: Kleber insere no enredo do filme a história da perna cabeluda, muito conhecida em Pernambuco. No filme, a perna aparece numa barriga de tubarão que está sendo dissecado num laboratório na UFPE. 

    Em seguida ela vai para o IML, e de lá é levada por capangas e jogada no Rio. Ela volta à vida e vai atacar pessoas no Parque 13 de maio, um lugar onde vários casais e trisais gays estão fazendo sexo ao ar livre.

    Essa sequência, além de parecer um curta-metragem feito por um aluno de cinema na faculdade, usa exatamente do mesmo artifício que está repetido à exaustão atualmente: pegar a linguagem de gênero e trazer para questões identitárias (“atuais”) – essa é a formula de Corra, um filme de 2017.

    E pior: a cena de terror é interrompida por uma pessoa que a conta para outras, e todo mundo cai na gargalhada.

    Não entendo qual é a dificuldade de Kleber em desprender-se da atualidade: ele insere, por exemplo, a história da mãe que deixou o filho da empregada sozinho no elevador e o menino terminou caindo de cima de uma das torres gêmeas do Recife, o que causou grande comoção local.

    A história parte de um conflito entre o chefe sulista de uma estatal e o funcionário insubordinado (e pernambucano) que consegue realizar um projeto de sucesso dentro da estatal.

    Eles entram em conflito aberto, até físico, o que parece levar à morte da esposa do protagonista (não ficamos sabendo exatamente como), e à fuga deste de volta para o Recife, onde é recebido num prédio de apartamentos com perseguidos pelos militares. Ele ainda não sabe, mas foi jurado de morte.

    Lá ele fica escondido e muda de nome. Só que aí tem duas coisas que não fazem sentido: apesar de estar escondido, ele é colocado para trabalhar numa repartição que é aberta ao público; ele não é um agente secreto, só uma pessoa que está fugindo de outra (o título é referência a outro filme?) que aparentemente tem o apoio do Estado.

    O antigo chefe encomenda a morte a um matador de São Paulo, que por sua vez contrata um local para fazer o serviço.

    Os arranjos de poder locais vão impedir que o crime se realize como programado, de modo que Kleber insere um embate regional (Sudeste versus Nordeste) no contexto da ditadura.

    A questão racial é também mencionada, o filme inteiro é concebido a partir de uma série de dualidades (Sudeste vs Nordeste, Estado x indivíduo, brancos x pretos), que é uma visão binária bem típica do diretor pernambucano.

    Por fim, até a reconstituição do Recife nos anos setenta deixou e muito a desejar, tive a impressão que ele não conseguiu organizar no filme o caos do centro da cidade – coisa que Walter Salles conseguiu fazer tão bem em Ainda estou aqui.

    Minha noite no Cinéma Olympia de Cannes foi uma decepção.

    Josias Teófilo é escritor, jornalista e cineasta

    X: @josiasteofilo

    Instagram: josiasteofilo

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    Comentários (4)

    Renata De Paula Xavier Moro

    2025-05-26 21:49:01

    Mas que bagunça esse enredo! Alguém entendeu alguma coisa?


    Andre Luis Dos Santos

    2025-05-24 16:37:34

    Go woke, go broke. Obrigado pelo artigo. Certamente não vou dedicar duas horas da minha vida pra ver esse filme.


    Marcia Elizabeth Brunetti

    2025-05-23 16:20:34

    Infelizmente não consigo assistir filmes nacionais. Os muito antigos até são interessantes e as comédias muito melhores do que esses atuais, carregados de identitarismo e "lugares de fala" (urgh!). Não se tinham recursos tecnológicos e por isso exigia muito dos artistas, dos produtores, do tema escolhido, além de toda a equipe de filmagem.


    Carlos Renato Cardoso Da Costa

    2025-05-23 05:31:36

    Mais uma porcaria do cinema nacional. Para quem se iludiu com Ainda estou aqui podendo ser tábua de salvação, toma aí essa nova pérola!


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    Comentários (4)

    Renata De Paula Xavier Moro

    2025-05-26 21:49:01

    Mas que bagunça esse enredo! Alguém entendeu alguma coisa?


    Andre Luis Dos Santos

    2025-05-24 16:37:34

    Go woke, go broke. Obrigado pelo artigo. Certamente não vou dedicar duas horas da minha vida pra ver esse filme.


    Marcia Elizabeth Brunetti

    2025-05-23 16:20:34

    Infelizmente não consigo assistir filmes nacionais. Os muito antigos até são interessantes e as comédias muito melhores do que esses atuais, carregados de identitarismo e "lugares de fala" (urgh!). Não se tinham recursos tecnológicos e por isso exigia muito dos artistas, dos produtores, do tema escolhido, além de toda a equipe de filmagem.


    Carlos Renato Cardoso Da Costa

    2025-05-23 05:31:36

    Mais uma porcaria do cinema nacional. Para quem se iludiu com Ainda estou aqui podendo ser tábua de salvação, toma aí essa nova pérola!



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