De volta aos anos 90
O Brasil é um pais majoritariamente conservador, que valoriza a família e a religião
No estertores de 2025 veio à tona o livro Brasil no espelho: um guia para entender o Brasil e os brasileiros (Globo, 2025), de Felipe Nunes.
O conteúdo traz não apenas uma pesquisa de tipo survey, com cerca de 10 mil entrevistados, mas também densas reflexões sobre valores, atitudes e percepções dos brasileiros em temas como religiosidade, família, identidade nacional, honestidade, meritocracia, discriminação, sexualidade, insegurança, confiança, comportamento social e ideologia.
Nas palavras de Nunes: “Se compararmos os valores dos brasileiros em 1997 com os valores de 2023, o país parece ter voltado no tempo. Na terceira década do século 21, nosso povo pensa como na última década do século 20”.
E, poucos parágrafos depois, complementa: “Na média, somos um país majoritariamente conservador. Prevalecem os valores tradicionais da religião, a valorização da família acima de tudo, a preservação de um pensamento estereotipado sobre o papel dos homens na sociedade, com uma aceitação moderna e conflitiva do papel das mulheres dentro e fora de casa. Na média, somos um povo com pouca aceitação das minorias, onde o diferente é admitido, mas visto como incômodo”.
Conjugando teoria com os dados empíricos, Nunes avança, em seu escrito, apresentando dilemas, agruras e potencialidade no bojo da sociedade brasileira.
Discussões que tomaram conta do debate público nacional: religião, crescimento dos evangélicos, cotas, racismo, violência, força da família, polarização política, entre tantos outros, ganham uma dimensão explicativa, objetivando não apenas apresentar números, mas, sobretudo, um retrato científico da realidade social.
Importante, aqui, é compreender que, queiramos ou não, a ciência traz respostas aos problemas postos nas pesquisas.
Conhecer esses problemas que orientam a investigação científica e suas respostas nos torna mais aptos para se posicionar e dialogar criticamente.
Numa sociedade hiperconectada em redes que, não raro, por conta da lógica algorítmica, as fake news, pós-verdade, negacionismos e teorias da conspiração, livros como O Brasil no espelho dão sua contribuição para o debate público e político.
O ano de 2026 traz, novamente, eleições: deputados estaduais e federais, senadores, governadores e presidente da república.
Nunes, sócio-fundador da Quaest, um renomado instituto de pesquisa, oferta aos brasileiros, cidadãos e atores políticos, uma excelente base para a construção de seus projetos políticos e de governo, bem como elementos para modelar a construção das narrativas políticas: à esquerda, ao centro e à direita.
Muitos criticam a política e os políticos, contudo, cabe, sempre, ponderar o que seria da vida coletiva sem a política e seus operadores: os políticos.
A qualidade da política e da própria democracia são, constantemente, questionadas. E assim que tem que ser.
E, mais importante, é entender que os políticos, em larga medida, são reflexos da sociedade que se constitui em chão histórico para sua existência.
Ler, portanto, Brasil no espelho ajuda – e muito – a diferenciar entre olhar e examinar.
O exame proposto no livro, em suas múltiplas dimensões, nos coloca defronte o espelho.
Qual imagem veremos refletida?
Como asseverou Caetano Veloso: "É que Narciso acha feio o que não é espelho”. Ou não?
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Comentários (1)
Albino Clarel Bonomi
2026-01-02 07:07:59Muito bom!